Cuiabá nos confins de 1964

Em 2006 o Clube Feminino não era nem de longe o clube glorioso que foi um dia, mas aquela noite era de homenagens. O saxofonista Bolinha e o guitarrista Neurozito já estavam aquecidos, de trás do palco, esperando o sinal para subir no mesmo palco onde juntos fizeram a primeira aventura rock na roll em Cuiabá, há 48 anos. O tributo surpresa foi no meio do show do Vanguart, que fazia a “cozinha” para os dois se sentirem à vontade.
A plateia pula ao som do rock cinquentão e participa como pode, mas nem de longe sabe a força visual que era Jacildo e seus Rapazes nos palcos dos clubes cuiabanos, lá nos idos de 1964, e muito menos poderiam acreditar na jornada em cima de uma Kombi velha rumo a São Paulo para tornar possível o primeiro disco da história do rock cuiabano. Mas vamos do começo.

Praça Alencastro, no centro da cidade, em meados dos anos sessenta

Imagine a Cuiabá dos anos 60. Com pouco mais de 57 mil pessoas, viu sua população quase dobrar com a vinda de emigrantes incentivados pelo Governo Federal a ocupar a Região Amazônica. Assim, a capital mato-grossense foi ganhando um novo aspecto urbano, mais com cara de cidade grande. De norte a sul, a cidade crescia e continuava a receber mais gente de fora. As festas eram comandadas pelas bandas de baile, que tocavam desde blues e o jazz até os rasqueados mais antigos. Alguns clubes como o Dom Bosco e o Feminino eram os mais frequentados, em sua maioria pela elite. Quem não era de família conhecida ou que não tinha certa posição social comprovada, não entrava.

Bandas como The Crows, Os Intrusos, Los Bambinos e New Time eram as mais quentes do pedaço e se apresentavam com certa regularidade no clube Náutico (no outro lado do rio, em Várzea Grande), no Bar internacional e no Clube Sayonara, que foi inspiração para um  documentário feito por alunosda UFMT, em 2008. Em tudo quanto era lugar tinha festa, até no Curral de Bode no Clube Mixto, e na zona do Tabaris. Ali, no bairro da Lixeira, a festa era até amanhecer na casa da Carminha. A galera fervia nas músicas dançantes e a onda Ie, ié, ie espalhava-se pelo Brasil, mas o rock enquanto gênero musical ainda era uma novidade distante e uma banda com postura e atitude rock and roll ainda não tinha aparecido pelas bandas do cerrado.

E quando chegou, chegou impactando. Jacildo de Jesus, o líder do grupo, estava longe de ser um cara comum. Topetão, roupas de couro, bota grossa e aquela postura bad boy fazia dele uma novidade entre os músicos locais. Era casado, mas tinha várias namoradas. Na velha camionete fubica, apelidada pelo saxofonista Bolinha de “Anastácia”, corria de um lado para outro da capital e por algumas cidades do interior carregando instrumentos, caixas de som e a sua equipe de comparças. Era só dizer o local do show que os músicos chegavam em grande estilo. “Imagine o espanto da cuiabanada, que naturalmente nunca havia visto algo semelhante… rapazes com jaquetas de couro, tocando guitarras a todo volume, distorcido e de forma dançante”, explica o pesquisador musical Guapo, que conheceu o grupo em atividade.

Uma das únicas fotos de Jacildo de Jesus, sentado durante uma aprensentação no Clube Feminino. sem data. Acervo: Guapo

Extrovertidos e sorridentes, a banda usava uniformes coloridos, faziam movimentos coreografados durante os solos e tocavam blues, rock, samba, bossa nova, jovem guarda. “O Jacildo tinha um magnetismo”, lembra Bolinha. “Na hora do show, ele jogava a perna pra cima, pra baixo, mandava beijo para as garotas, botava a guitarra no pescoço, fazia solos que eu nunca tinha visto antes. Tocávamos de 10h da noite até às 5h da manhã, no Cine Tropical, Clube Feminino, e para ele, tudo era sempre uma festa”, completa. Além de pioneiro no rock na cidade, Jacildo era uma dos músicos permanentes na Rádio Voz do Oeste, sendo guitarrista fixo que acompanhava, ao vivo, os calouros que se inscreviam nos concursos de talento promovidos pela emissora.

“Os jacildos” posam para a foto que foi capa do primeiro disco. O último da esquerda para direita, de preto, é Juarez Silva, conhecido cronner das rádios cuiabanas e que acompanhava a banda como apresentador oficial

Essa experiência em tocar outros gêneros deu um “tchan” na sonoridade do único disco da banda, Lenha – Brasa e Bronca, lançado em 1966. Mesmo sendo um disco de rock and roll, cheio de baladas jovem guarda estilo Paul Anka e pitadas dos blues acelerado dos anos 50, duas musicas fogem da regra: a instrumental Musicomania tem um violão base bossanovista que se mistura aos licks e timbre roqueiro da guitarra. E como se não bastasse, a música Cantada, a ultima do disco, é um bolero quase samba-canção cheio de swing e amor de menininha. O clímax do Lp acontece mesmo na versão instrumental de Day Tripper, do Beatles, que provava de uma vez por todas que Cuiabá finalmente estava conectada com a nova música que se espalhava pelo mundo: o rock and roll.

Texto originalmente publicado dia 9 de outubro (clique para ampliar)

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